quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Avenida Beira-Rio, um erro de difícil solução


                           

         A  construção da Avenida Beira-Rio trouxe mais problema do que solução.
Se visava desafogar o trânsito no centro da cidade, os períodos de impedimento parcial para reparos entre as pontes da Água Limpa e do Carrapicho duram mais da metade do intervalo entre a expectativa de uma enchente e outra.


         Houve precipitação na iniciativa de sua obra. A certeza de enchentes maiores do que o seu leito original vem desde 1932, famosa por sua abrangência, até então inédita. Houve outras, como a de 1959, que também chegou à esquina do pecado e Rua Coronel Geraldo, inundando lojas e residências.  A de 32, teria chegado ao jardim da Praça 28 de Setembro. Antes, o perímetro urbano era pequeno e o número de habitantes da cidade não chegava à metade do total. 
Imagens: Alexandre Peluso


         Mas o início das obras daquela avenida já coincidia com um período de crescimento demográfico na zona urbana, na transição do século 20 para o 21.  E a concentração de moradores na cidade contribui para aumentar o volume das cheias, devido à ocupação natural das áreas adjacentes, que torna impermeável o solo coberto por asfalto e cimento armado, além da eliminação da vegetação existente nesses espaços.

         E a obra daquela via pública começa por eliminar as matas ciliares ribeirinhas, sustentadoras da crosta terrestre de suas laterais.  Dentro de um critério responsável, teria de ser feito cálculo da capacidade cúbica da passagem das águas vindas das cabeceiras por ocasião de chuvas torrenciais, ou trombas d’água, mais as que viessem se juntar a elas oriundas dos altos dos morros loteados e urbanizados, como de outras áreas das partes baixas onde também a vegetação foi substituída pelas construções e pelo calçamento.
Pista no lugar das matas ciliares

         Para a viabilidade dessa pista, dentro de um previsível constante crescimento urbano, o espaço para o curso do rio teria de ter sua capacidade no mínimo dobrada, no alargamento, ou na profundidade.  A primeira hipótese parece inviável por falta de espaço lateral, entre os vãos das pontes e as construções de um lado e de outro.  O aprofundamento aumenta o risco de erosão e desabamento. 

         Havia uma ponte construída na década de 70 do Século passado, projetada para ligar a Rua Dr. Altino Peluso a um projeto que atingisse a Rua Nova(Av. Dr. Carlos Soares).  Plano que se tornou inviável porque havia terrenos particulares naquela trajetória que impediam a sua conclusão.  Assim, a ponte ficou pendurada sobre o outro lado do Rio.  Por questões de rivalidade política, facções adversárias passaram a denominar aquela tentativa de “Ponte Sem Explicação”. E o termo caiu no humor rio-branquense e virou domínio popular.
         Nesse clima, para alguns, a construção da Avenida viria “explicar” a Ponte.

         Se houvesse condições técnicas, essa obra se justificaria, para desafogar o trânsito no centro da cidade.  Os espaços estão menores a cada dia para o volume de veículos.  O trecho da estrada de ferro desativada tornou-se indispensável na estratégia de trafegabilidade no Município.

         Apesar de tudo, naquelas condições, essa obra não deveria ter sido realizada.  Houve erro de açodamento.  Dependeria de estudos, cálculos, análises sobre conseqüências, impacto ambiental.

Erro de razão. O motivo para melhorar o movimento de veículos era pequeno para tantos riscos e custos.

Erro de custo. Altas indenizações dos imóveis desapropriados para aquele fim, mais a execução da obra em si.

Erro ambiental.  A pista de rolamento ocupa o espaço das matas ciliares e ultrapassa os limites das margens do curso das águas.  E a destruição dessas matas elimina a sustentabilidade  dessas margens e provoca as erosões de todas as enchentes.  Exatamente por causa dessas erosões, a Avenida se encontra mais tempo passando por obras de reparação, do que livre para o trânsito. Isto consome recursos que poderiam estar sendo aplicados na conservação de outras ruas e avenidas.

Erro de manutenção. Pelas razões acima, ela se tornou cara para a construção e para manutenção.

Erro de ocupação.  Uma pista lateral ao Rio sujeito a transbordamentos periódicos, nunca poderia ser usada para construção de habitação e outras atividades no seu transcurso.  São permanentes áreas de risco. São constantes ameaças à vida e a prejuízos irreparáveis.

Imagens de 16/07/2012 - Rua José Lopes, paralela à Av. Beira Rio

Por tudo isto, ela é cara aos cofres públicos e à economia privada.  Em resumo: é cara à população, sobre quem recaem todas as despesas realizadas.   E a de vida se torna de má qualidade.

Este início de outubro sempre nos leva a estas reflexões, porque muda o clima com a chegada da Primavera, para nossa região com a elevação da temperatura e as ameaças de chuva.  De agora até janeiro as precipitações pluviométricas atingem seu pico, não se sabe quando exatamente.  Os dois  últimos traumas vieram em novembro de 2010 e janeiro deste ano.

Temos marcas das destruições de 2006, de 2010, e de janeiro/2012.
2006

Nov. 2010

02/01/2012

Residências, comércio e atividades públicas à margem dessa Avenida colocam seus ocupantes em alerta a partir de agora.  Todos têm de estar atentos aos serviços de meteorologia.  Não sabermos por que razão as enchentes chegam sempre em altas horas da madrugada.

O fim de ano que é tempo de festa para uns, traz tormenta para outros.

(Franklin Netto – viscondedoriobrancominasgerais@gmail.com)       

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