terça-feira, 2 de outubro de 2012

O reinado da Mentira


      
 
         Se a cada mentira falada houvesse um trovão nas alturas, nestes dias até as eleições, ninguém dormiria nos 5.568 municípios do Brasil.

         Na tentativa de ganhar o voto, a maioria dos candidatos promete o céu e a terra ao eleitorado, sem medir se pode ou não cumprir a promessa.  Na verdade, quem mente não tem essa preocupação de cumprir.  Seu objetivo é o imediatismo.  Mesmo que haja mentido antes, em outras campanhas, confia na curta memória do povo.

Principalmente aqueles que fazem carreira na política. No seu raciocínio, se a mentira deu certo de outras vezes, dará sempre. 

         Os  eleitores novatos, se não souberem do passado dos candidatos, devem perguntar aos outros eleitores que participaram de campanhas anteriores.  Promessas fáceis são de difícil cumprimento. Não há milagre. Os recursos públicos são poucos para atender a todos os anseios da sociedade, da sede de altos rendimentos  dos titulares dos cargos e dos financiadores de campanha.

         De todos esses municípios, os menores oferecem maiores oportunidades para os eleitores saberem do currículo dos candidatos, sobretudo dos que já tiveram mandatos.  Por menos transparência que ofereçam, há realidade que não se pode esconder.  A evolução patrimonial, por exemplo.  Quem foi e quem é cada um.  Se teve enriquecimento rápido, incompatível com seus ganhos. A análise de seu patrimônio, do seu padrão de vida, de suas ligações políticas e particulares oferecem evidências palpáveis.  Nisto vale muito saber “com quem andas”, para conhecer “quem és”. 

         No momento em que os crimes do Mensalão estão em julgamento, é interessante buscar as suas ramificações desde o alto da pirâmide política até suas bases: da presidência da república aos simples vereadores.

         As suas ações existem há muito tempo sob outras formas e denominações desde os famosos currais eleitorais, onde no dia das eleições havia comida de graça para aqueles de quem a classe política arrancava o couro durante quatro anos.

         Mas sua feição atual começou com Eduardo Azeredo, em 1998, e se espalhou pelo “valerioduto” que compreendia Marcos Valério e suas empresas de publicidade e algumas instituições financeiras. Atendiam todo tipo de facção corrupta e corruptora, com maior repercussão na cúpula do PT, por ocasião do assassinato de Celso Daniel, então prefeito de Santo André-SP, nos primeiros anos deste Milênio.

         O Mensalão serviu de base de sustentação para compradores de votos nas altas casas legislativas, como para corromper eleitores em pleitos municipais como os de agora. E a denominação passou a designar as distribuições de brindes(camisetas, bonés, chaveiro, dinheiro vivo no dia das eleições), como material de construção, cestas básicas, dentadura, aparelhos de som e todo tipo de vantagem que induzisse o eleitor a votar em quem  oferecesse as prendas.

         Em Visconde do Rio Branco, o Mensalão atingiu dimensões internacionais nas eleições de 2006, quando Juvenil Alves estabeleceu ligações estreitas com empresários e políticos locais e daqui arrancou 2.850 votos.  Seu esquema alcançou a denominação de Operação Castelhana, porque tinha um escritório de advocacia com o fim de blindar patrimônio de empresas na sonegação fiscal, desvio de divisas e falsidade ideológica, que provocou prejuízo calculado de 1 bilhão de reais ao Tesouro Nacional.  Seus advogados transferiam 99% do patrimônio dessas empresas para o Uruguai, de maneira a pagar impostos somente sobre 1% à Receita Federal.  Daí, as denominações Operação Uruguai e Operação Castelhana.

         Foi o deputado mais votado em Minas Gerais pelo PT.  Disputou sob recurso judicial, porque o crime o tornava inelegível. Mas, graças aos recursos, respaldado na presunção de inocência, concorreu, foi diplomado, tomou posse e exerceu o mandato por mais de um ano, até que o Supremo Tribunal Federal confirmou a sua inelegibilidade.  Ninguém teve notícia de ele ter devolvido aos cofres públicos o que recebeu indevidamente no exercício de um mandato ilegítimo, nem de como ficou sua situação pelos crimes cometidos na Operação Castelhana.  Quem paga esses prejuízos é sempre o contribuinte de atividade regular, de rendimentos constantes em folha de pagamento, ou de pequenas e médias empresas onde o fisco faz pente fino.

         O fato é que a Polícia Federal esteve na cidade, nas investigações sobre elos com a quadrilha de Juvenil Alves.

Houve desdobramentos com a máfia dos combustíveis.  E tudo ficou relaxado na elasticidade do conceito de presunção de inocência. 

         A recente Lei da Ficha Limpa rastreou os meandros da política rio-branquense. Levantou vestígios de improbidade administrativa pelos tribunais de conta.  Mas não produziu efeitos transparentes para orientação do povo que foi co-autor dessa Lei.  Cabe a esse mesmo povo examinar por si mesmo quem é envolvido com que. Se teve enriquecimento incompatível com o tempo e com seus prováveis ganhos.

          Se alguém se enriqueceu na vida pública, vai continuar a fazer sua ciranda financeira se tiver nova oportunidade. A conta sobra para o mesmo povo mal remunerado pagar.   "Atrás de toda grande fortuna há um crime", dizia Honoré de Balzac.

(Franklin Netto – viscondedoriobrancominasgerais@gmail.com)

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