As
chuvas são necessárias e imprescindíveis. Basta faltar por um longo tempo para sabermos
o quanto delas precisamos.
Mas neste Município, de uns anos para
cá, as nuvens negras, os ventos fortes provocam temor, como se algo de trágico
estivesse por vir. Principalmente se elas caem durante horas seguidas, provocam
enxurradas e as águas dos rios aparecem amareladas.
O nosso Chopotó, de calha tão pequena e
rasa, transborda-se facilmente. E há tantas atividades às suas margens! Residências, trânsito, oficinas diversas,
casas comerciais... E temos os últimos anos na recordação que deixaram marcas,
sustos, prejuízos, vítimas.
Este período de fim de ano e começo de
outro, de outubro a janeiro, fevereiro e... quase março. 2006, 2008, 2010, 2012. E sempre as enchentes chegaram de madrugada,
como se a proximidade com as nascentes na Serra da Piedade e de São Geraldo influíssem
sobre o horário.
De Guidoval em diante as cheias passam durante o dia, depois
de somar o afluente do Rio dos Bagres na zona rural da Barra de Guiricema.
Quando chove em áreas isoladas e em horários diferentes,
quase não se percebe. As águas se dissipam e mal turvam o leito que as
carrega. Mas nesta quarta-feira,
quatorze, a meteorologia indicava ‘tempo nublado com chuva’ em Ubá, Paula
Cândido, São Geraldo, Ubá e Visconde do Rio Banco. E aqui choveu.
Certamente a previsão não falharia nas outras cidades.
O que isto tem a ver?
- Se chove em Paula Cândido, certamente as nascentes de
Piedade de Cima descerão volumosas. Se o mesmo acontece em São Geraldo, o Encontro
perto da Estação Ferroviária, com aquele punhado de casas dentro do Rio,
dobrará o volume das cheias. Nossas águas não vão para Ubá, mas seguem para
Guidoval, somadas às do Rio Bagre, vindos de Guiricema. E está fresco na nossa memória o arraso que
sofreu Guidoval no dia 2 de janeiro deste ano.
Felizmente nossa noite chegou amparando uma chuva fina. E, a
esta hora da madrugada de quinta-feira(03:11), não tivemos notícia de
transbordamento dos nossos rios, como das vezes citadas e sabidas da população.
Mas fica a apreensão. O período é longo e está apenas começando.
Se neste começo o cinturão em torno do município sofre as
precipitações de época, dentro de alguns meses, ou dias, com todo o solo
encharcado, tudo pode acontecer, embora torçamos para não acontecer o pior,
como das últimas vezes.
A Natureza não se vinga, como alguns pensam e dizem. Ela apenas
acontece. Cumpre seu círculo. O ser “racional”
é que se torna irracional ao invadir, permitir e não proibir essas obras públicas
e particulares onde os rios pedem passagem para as águas pluviais que, de
repente, se tornam fluviais. A calha é o
curso natural pela lei da gravidade.
Quem pensa, tem que lembrar o nível mais alto atingido pelas cheias
testemunhadas em Visconde do Rio Branco desde 1932
Uma caminhada desde a Ponte do Dr. Lelé até a Ponte Branca(Av. Oscar Salermo) é suficiente para
mostrar um pouco da imprudência humana ao menosprezar os direitos da
Natureza. Mas há mais, muito
mais para quem tiver a curiosidade de conhecer a extensão desse
desrespeito.
A Ponte da Água Limpa se encontra em um ponto muito fácil de
qualquer um parar, olhar para um lado e para o outro. Vê obras particulares
ocupando metade do Rio, dos dois lados da ponte. E ainda vê a pista de trânsito
a disputar espaço, ou melhor, a tomar o espaço pertencente às matas
ciliares. O público que deveria reger a
todos é o primeiro a invadir e incentivar invasões. Quando vêm os temporais e as enchentes,
muitas vezes pagam os justos pelos pecadores.
Muitos destes estão protegidos em seus palácios de luxo, cheios de
segurança, custeados pelas contribuições compulsórias dos impostos arrancados
do sacrifício de todos que não participam das prebendas do poder.
Gostaríamos sempre de esperar pelas chuvas como irrigadoras
da terra para produção dos bens de sobrevivência. Pensar em boa safra! Fartura!
Elas vêm e passam, deixando os terrenos férteis em seu caminho em
direção ao mar. O mal está em quem
obstrui a sua natural passagem.
De acordo com Bertolt Brechet, violentas não são as águas que tudo
arrastam... violentas são as margens que as comprimem...
(Franklin
Netto – viscondedoriobrancominasgerais@gmail.com)
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