Em
Visconde do Rio Branco, a Bandinha instalada em palco modesto em frente à
escada do balaústre anima os foliões que gostam do Carnaval como Carnaval de
sempre. Esse gosto vai além das gerações
do passado e atinge um grau de cultura que contagia a mocidade quando tem
oportunidade de ouvir as melodias e as letras com as histórias de temas
variados, desde o romantismo, a dor de cotovelo, os problemas sociais
retratados principalmente no Rio de Janeiro, berço do samba e do estilo autêntico
do carnaval brasileiro. Os temas sociais
se fundamentam na pobreza, na vida das favelas, nos seus barracos, na ida e
vinda para o trabalho.
Nesta
questão, lá em São Paulo, Adoniran
Barbosa deixou o Trem das Onze, que os Demônios da Garoa imortalizarem e o
transformaram em clássico popular que
atravessa gerações. Não há rodada de cerveja, ou qualquer manifestação musical
popular onde falte esse samba.
E,
na passarela do samba, no Rio de Janeiro, ontem, o motivo social serviu de base
para Rosa Magalhães conquistar o público, conforme esta notícia da Agência
Brasil:
A Unidos de Vila Isabel fechou o
desfile com o enredo A Vila Canta o Brasil Celeiro do Mundo – Água no
Feijão, que Chegou Mais Um..., da carnavalesca Rosa Magalhães. A escola
prestou homenagem ao homem do campo e uniu a cultura do samba à moda de viola”.
Os
foliões que brincam ao som da Bandinha cantando a Jardineira, Me dá um dinheiro
aí, Menina Vai, A cabeleira do Zezé, Cachaça, Alah lá ô, As Pastorinhas e
outras semelhantes chegam a se comover quando o conjunto muda de ritmo e entra
em um bloco de samba. Parece que os compositores usavam as marchinhas para os
temas irreverentes e no samba colocavam seus lamentos, desabafos e desilusões
de amor.
Ataulfo
Alves e Mário Lago lançaram para carnaval, mas o gosto popular eternizou como
clássico “Ai! Que saudades da Amélia”
- aquela que “achava bonito não ter o
que comer. Quando me via contrariado, dizia: meu filho o que se há de
fazer? Amélia não tinha a menor vaidade.
Amélia que era a mulher de verdade”.
Comparada
à Amélia existe a Emília. O movimento
feminista usa essas duas como exemplo do que a mulher não deve ser: submissa,
conformada, de cama, mesa e banho. Igual à Emília seria “uma mulher que saiba
lavar e cozinhar. E de manhã cedo me acorda na hora de trabalhar. Não existe
outra, e sem ela eu não vivo em paz... Emília, Emília, Emília eu não posso
mais... Ninguém sabe igual a ela
preparar o meu café. Não desfazendo da outras, Emília é mulher. Papai do céu é
quem sabe a falta que ela me faz.... Emília, Emília, Emília eu não posso
mais....”
Este
é o carnaval dos sons, letras e ritmos agradáveis que fazem higiene mental e
deixam o corpo leve, sem agressão aos ouvidos dos foliões e dos assistentes.
Muita gente gosta de comparecer somente para ver. É satisfatório compartilhar
da alegria, do movimento das danças de acordo com o jeito de cada um,
descontraído, com passos livres, sem regras e sem aprisionamento.
Nessa
espontaneidade passam pelo imaginário figuras simples do cotidiano, cada qual
com sua personalidade, alguns expansivos, outros tímidos, mas todos ao natural,
sem efeitos alucinantes. É a diversão sadia, saudável, que faz bem e não deixa sequelas.
Muitos
lamentam quando a Bandinha pára de tocar. Acham que pára cedo. A vontade era brincar a noite inteira.
Amanhã
é quarta-feira de cinzas. A virada desta
madrugada faz lembrar o tempo dos carnavais nos clubes. Quando amanhecia,
os grupos saíam de cada salão e se
encontravam na Praça, em frente ao antigo Aero Clube. E por ali dançavam por
algum tempo até começarem a se dispersar lentamente. Muitos cruzavam com os religiosos que vinham
da missa com a cruz de cinza na testa. Cada um na sua, como se dizia à época,
sob o olhar de censura do padre.
Os
donos das casas comerciais do ramo de bebidas e salgados e os das barraquinhas
ficam satisfeitos com o resultado da folia, porque vendem tudo mais caro e a
dinheiro, nesta ocasião. Já os demais muitas vezes lamentam porque alguns
fregueses ficam em falta nos acertos mensais para gastar no carnaval.
Assim
é a vida!
(Franklin Netto
– viscondedoriobrancominasgerais@gmail.com)
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