
Cessa tudo enquanto a esbórnia reina
Nesses dias orgiásticos do calendário ocidental e cristão, ai de quem quiser resistir no mundo real
Para tudo.
Um ciclone tropical de alta temperatura e variadas cores varre este país sambeirosem pedir passagem. Reinados multifacéticos, dotados de incontroláveis poderes devassos emanados das profundezas do infinito, substituem republicanos governantes de ternos e colarinhos brancos.
Ai de quem não fechar a portinhola do seu cérebro nervoso e abrir as comportas dos seus instintos selvagens.
É de lei. É da cronologia.
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| No cordão do Bola Preta, hoje, a hora de extravasar em bandos |
Porres homéricos submergem o sacrário dos valores venerados vigentes e param os gritos no ar. Porres nossos e, principalmente, dos outros, na dantesca catarse terapêutica da desordem desunida, que açoita a lógica e desdenha dos bons costumes. É do prelúdio alegre do apocalipse das lendas catastróficas.
A algazarra incrementada pelos batuques dos tamborins coléricos é a chama da metamorfose que desfigura e refaz para compensar nesta quase semana inteira a pedreira e o sufoco do antes e do depois. Sob efeitos das mais púberes fantasias, das metáforas inconscientes, embalsama-se tudo dos hábitos cotidianos e emerge tudo que o império da esbórnia esbanja. É hora de extravasar pelo bem ou pelo mal.
Para tudo por que os corpos sedentos de prazer subjugam as cabeças transtornadas, confusas e periclitantes na troca temporal pelo "essa noite eu me embriago", pelo "seja o que Deus quiser" e pelo "ninguém é de ninguém",impulsos pétreos de uma desconstituição anárquica. Que até a dúvida da sexualidade provoca.
Para tudo porque quem ousar resistir à guerrilha da alegria irresponsável e efêmera será fatalmente esmagado pelas tropas da folia, municiadas no front, nos flancos e na retaguarda com carga pesada para esses dias da mais ousada embriaguez.
Até quarta ou quinta-feira o manto de um cintilante arco-ires pairará sobre montes, planícies e paias divinais, produzindo o mais ébrio e orgástico dos efeitos contagiantes. É a fúria primitiva da liberdade sacrílega, cerceada no ano inteiro das conveniências e das subserviências.
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| Em tempos de carnaval, sob o reino do Momo, toda nudez será festejada |
É o mais profundo corte epistemológico na rotina das cidades, das aldeias e dos campos gerais. É o ópio que faz esquecer o pão nosso de cada dia, as angústias, as dívidas, os compromissos e os desejos do mundo real, congelando os sentidos de quem se envolve e de quem não se envolve na gandaia.
É o cessar fogo na guerra inclemente de todos e de cada um por um lugar ao sol.
É a hora e a vez das máscaras e das fantasias saírem dos armários e dos cérebros para mostrarem-se protuberantes, ostensivamente, sem os freios da hipocrisia cínica e falastrona.
É a hora da onça beber água, ante a intrepidez etílica dos tépidos vassalos, serviçais e submissos que, por um fenômeno catártico, tornam-se os reis da cocada preta e protagonizam as eletrônicas imagens internacionalizadas e hipertrofiados via satélite com seus bocões de sorrisos ensaiados e suas performances corpóreas estereotipadas.
Hora pétrea também dos exibicionistas e das moçoilas de pernas roliças e seios exuberantes, para quem os borbotões de olhares cravados inflam seus egos mediocrizados na ilusão de que não precisam saber de mais nada, nem buscar o conhecimento, nem informar-se, que os corpinhos esculturais reluzidos de paetês e purpurinas lhes salientam como destaques da madrugada quente e abrem as portas de um amanhã afortunado.
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| No final do desfile do Bola Preta nem o carro da PM foi poupado |
Diante de tantos disfarces compensatórios quem me há de dar atenção à crônica inconformista, quem vai querer tomar conhecimento dos meus murros em pontas de facas?
Ninguém, nem quem não vai se esfregar nos cordões desvairados, porque o fogo cruzado dos alucinógenos disparados vai invadir-lhe a sala em sonhos, cores e malabarismo que as mídias potencializam e nos enviam em sinais eletrônicos tentadores.
Ninguém mesmo porque todos precisam dar um tempo, aliviar a mente cansada, soltar-se das algemas mentais, seja no torpor das ruas agitadas, seja nos lares amortecidos, seja nas paradisíacas praias e nas altaneiras montanhas onde se encontra também como dar tempo ao tempo, que ninguém é de ferro, nem de lata é.
Quando quinta chegar será outra civilização. Os pulmões estarão recarregados e o ano novo de 2013 chegará enfim com seus mistérios e surpresas, encantos e desencantos.
Nesse então, se não me falhar a pena, aqui estarei para lhe oferecer o que tenho do bom em corpo e alma - a provocação apaixonada do cidadão que há em você, a lembrança do que lhe é devido ou lhe é negado, ou lhe é furtado.
Aí, sim, vamos pôr em dia nossas conversas necessárias para que afastemos de nossos dias restantes o fantasma da inércia, da covardia e da acomodação suicida. Para que paremos de entregar o outro ao bandido.
Aí, sim, vamos estar juntos para dizer não ao sarro que insistem em tirar em nossas costas, como se todos nós estivéssemos ferreamente acorrentados aos grilhões da injustiça, da espoliação, da rapina, da submissão e da arbitrariedade.



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