quinta-feira, 4 de abril de 2013

COLUNA DO PAULO TIMM(Torres-RS) - O FIM DAS MUCAMAS NÁO É O FIM DO SERVILISMO


 



03/04/2013 20h00
  
O FIM DAS MUCAMAS NÁO É O FIM DO SERVILISMO

Todos atingidos pela precarização do trabalho: domésticos e náo - domésticos


A recente extensão dos direitos trabalhistas aos trabalhadores domésticos  tem se revelado um momento importante para se pensar a natureza da modernização no Brasil. Ontem,a Presidente Dilma sancionou a nova Lei, que, com atraso de 70 anos se incorpora aos benefício da CLT, outorgada por Vargas em 1943. Doravante, todos, trabalhadores, teremos direitos iguais, embora com remunerações diferentes segunda o gênero, a cor, a região e o setor . Contudo, diante da  medida, os últimos vestígios do escravismo na sociedade brasileira, vão desaparecendo.  A Casa Grande urbana terá que se despedir de um luxo que abundou na Roma Antiga e  que ,  na se prolongou, sobre as ruínas do Império , no mundo senhorial dos castelos medievais.  No advento da modernidade, Seculos XVIe XVII ainda podemos ver os resquícios deste servilismo em obras memoráveis, como o quadro  de Vermeer , levado ao cinema num dos mais belos filmes de todos os tempos :  “A Moça do Brinco de Pérolas “. Mas o fenômeno   nunca se generalizou, como aqui, na classe média. O quadro assinala, aliás, uma reviravolta na arte, que ali antecipa as mudanças sociais vindouras. O pintor pousa sua arte na imagem de uma empregada doméstica , algo impensável até ali, até porque os artistas viviam às expensas das classes altas e mecenas que jamais admitiram tamanho acinte. Imortalizou-se neste gesto.
A moça do brinco de pérolas – Vermeer – Holanda, XVI

No Brasil um pintor , de São Paulo, também  pousou sua atenção nestas mulheres: André Penteado. E advertiu:  
“Nós, a elite deste país, temos de aprender a ver e respeitar os outros como iguais.”


Uma das vertentes de meu trabalho lida com questões sociopolíticas do Brasil como corrupção e relações entre classes sociais. Interessam-me as tensões e contradições entre discurso e prática, geradas em momentos de transformação de estruturas historicamente estabelecidas.
A instalação “Domésticas” pretende discutir questões como a posição social e a imagem das domésticas e a forma com que as classes altas estão lidando com a possibilidade de perda deste “conforto”.

Nos Estados Unidos, já no Pós- Guerra ,  o serviço doméstico começava a desaparecer. Uma intensa revolução nos utensílios , com a proliferação de uma infinidade de eletrodomésticos facilitou as difíceis tarefas do lar. E uma mudança nos padrões comportamentais da família levou à maior cooperação de todos os seus membros nestas tarefas. Hoje, só o famoso 1% mais rico persiste com esse luxo...Mas, no Brasil, os serviços domésticos, ainda que estigmatizados,  persistiram, mesmo com a metropolização acelerada, sendo este contingente na sua imensa maioria mulheres e em mais de 50% negras. Pior: a idade média destas prestadoras de sérvios domésticos está aumentando. Elas estão envelhecendo. Em 1970 a maioria tinha até 24 anos (60,5% ), agora estão concentrados entre  25 a 44 anos (55,8%), segundo dados do IBGE. “Isso mostra que as jovens podem estar se escolarizando para não entrar nessa profissão”, afirma Natália Fontoura, do Ipea com o que está de acordo  autor do livro , o sociólogo Ruy Braga , professor da USP (A Política do Precariado)  , para quem  boa parte das operadoras de telemarketing  é  filha de domésticas.  Esse seria um dos traços mesmo da modernização conservadora no Brasil.
O Brasil é o país com o maior número de empregados domésticos no mundo, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Eram ao menos 7,2 milhões em 2010, enquanto, em 1995, havia 5,1 milhões, mais de 95% deles mulheres. No mundo, o número de empregadas também cresceu, mas nada se compara ao boom de 41% no Brasil. Hoje, de cada seis mulheres que trabalham no País, uma é doméstica. A expansão foi seguida pela alta de 47% nos salários, impacto causado pelo aumento do mínimo nos anos Lula.
Mas no Brasil, a chiadeira da  alta classe média está grande contra os novos direitos dos empregados domésticos: jardineiros, caseiros, motoristas, babás e cozinheiras.  Náo obstante, como lembra Adriano Benayon em recente comentário – www.desenvolvimentistas.com.br - , o Governo pouco se importa com ela, pois há tempo já não conta com seus votos. Prefere os votos das grandes massas que nunca tiveram empegada doméstica, aí incluídos os recém chegados à classe C, graças à elevação do salário médio na útlima década.  E nem se preocuparam em esperar o Dia 27 de abril próximo, dia de Santa Zita, padroeira das empregadas e de todas as que dedicam a cuidar do lar. A corrida presidencial urge...
Tudo começou com Zita. Nascida na Itália em 1218, começou a trabalhar como empregada doméstica aos doze anos. Com uma história muito semelhante à de Cida, ela também sofria na mão dos patrões ricos, que pagavam muito pouco pelo seu serviço. Tudo que ganhava, ela doava aos necessitados. Depois de uma vida dedicada aos pobres, ela morreu em 27 de abril de 1278 e foi canonizada em 1696.
Mais tarde, santa Zita foi proclamada a padroeira das empregadas domésticas. É no dia dedicado à santa que se comemora também o trabalho daquelas que cuidam da casa dos outros como se fosse o próprio lar.

Esta “sinistra” classe média, como a definiu recentemente Marilena Chauy  - A SINISTRA CLASSE MÉDIA NO BRASIL http://davissenafilho.blogspot.com.br/2012/09/marilena-chaui-classe-media-paulistana.html -, que agora reclama o fim das suas mordomias a baixo preço, sempre foi um apêndice das oligarquias proprietárias e dela copiou, mimeticamente, a cultura da prepotência social, o bovarismo, e o apetite pelos altos padrões de consumo, dentre os quais os prazeres internacionais.  Muitas vezes, até aprendem ,lá fora, o sabor de viver uma vida menos suntuosa, como salientou recentemente uma crônica de Adriana Setti, na Época. - http://colunas.revistaepoca.globo.com/mulher7por7/2010/10/30/como-a-classe-media-alta-brasileira-e-escrava-do-alto-padrao-dos-superfluos/   E passam a conhecer o sentido mais profundo da democracia como construção da igualdade. Aqui, porém,  fechados nas suas torres de privilégios, custam a se ajustar aos Tempos Modernos e , mesmo dizendo-se sem preconceitos, abusam nos papos do Face na adjetivação de seus empregados domésticos, sempre  (dês)qualificados como safados e preguiçosos.
Sempre procurei compreender a origem deste elitismo da alta classe média.
Uma das hipóteses que desenvolvi, quando ainda era Professor de História do Brasil, na Universidade de Brasilia, era da assimetria do processo de  modernização  entre os Estados Unidos e Brasil.
Lá, a classe média é , desde sua origem, mais homogênea, bem maior do que a nossa e laboriosa .Sua formação não vem apenas do tipo de Colonia de Povoamento, proprietária,  que viria a formar a sociedade americana, mas no fato de que  , enquanto aqui, fechávamos o acesso à fronteira agrícola com a Lei de Terras, em 1850, lá, com o Homestead Act , na mesma época , o Governo a liberava, abrindo a corrida para o oeste. Aprendi muito sobre isso com os livros do Otavio Guilherme Velho, a quem devo muito. Mas houve outro fator decisivo, na diferenciação.  Nos EU, os yanques – do norte -   destruíram, com a Guerra Civil, as aspirações hegemônicas do sul escravocrata. Com isso o modelo democratizante de acesso à terra corou-se de êxito no plano político. No Brasil, ao contrário, nunca conseguimos  desorganizar o regime de monopólio da terra, consagrado pelo que Caio Prado Jr. gostava de denominar MATRIZ COLONIAL . Nenhuma de nossas Revoluções Regionais de meados do Sec. XIX conseguiu abalar o regime escravista que acabou se perpetuando na República Oligarca e teima em manter privilégios no regime do “Coronelismo, Enxada e Voto” até hoje. Rigorosamente, costumo dizer que o Brasil de hoje, tirando o vertiginoso crescimento da população no Sec. XX, de 13 para 180 milhões, agora concentrado nas grandes metrópoles, não mudou social e politicamente muito. Continuamos sendo uma sociedade em que sequer um por centro controla a propriedade e mais da metade da renda gerada no país, uma fração de 30%  de classe média superior e o resto, literalmente, mesmo que em processo de diferenciação no período recente, é pobre. Metade desses pobres continuam miseráveis, engrossando  a degradação subhumana  nas áreas marginais das capitais.  Tal como sempre ...
Contudo, é alvissareira a criação  e extensáo de benefícios legais aos assalariados. Este é o caminho que outrora Fernando Henrique Cardoso chamava de ruptura pactuada. Vamos levar décadas até chegarmos a um patamar civilizatório aceitável.  Mas consola verificar que estamos caminhando. A passos lentos , mas estamos...
De 1979 a 2009, o emprego com carteira assinada entre trabalhadores domésticos cresceu, em média, 0,8% ao ano. “Se seguir esse ritmo, o Brasil levará 120 anos para incluir todos na proteção social e trabalhista”, afirma o economista Marcio Pochmann, ex-presidente do Ipea.
Além do ritmo “milenar” da incorporação das classes desfavorecidas, ainda há outro aspecto a considerar. Com a regulamentação dos serviços domésticos, sem a ruptura com a cultura conservadora do servilismo, ele acaba invadindo outros segmentos da vida social gerando novas formas de trabalho subalterno e precário. É o caso da generalização dos serviços de consultoria pessoal em distintas áreas, que vão do fitting ao footing , este último de serviços de acompanhamentos à compras e outros tipos de servilismo, extendendo-se ao império dos valets em vários campos, mas sobretudo de manobristas. Enfim, num mundo marcado pela extrema pobreza e pela desigualdade, há empregados “externos” para satisfazer todos os gostos, senão perversidades, muitas banalizadas: Um post que recebi  na INTERNET falando das excelências da cidade, não se peja, ao final,  de exaltar o fato de que a cidade dispões de 300 mil “garotas de programa”...
Na metrópole que sonha em se transformar em uma meca do luxo digna da alcunha, sua elite se defronta com a banalização do servilismo Mas não são apenas os valets de carro que colorem a paisagem do servilismo brasileiro. Há valets para cães (passeadores de cachorro) e para bebês (babás universitárias), além do “valet shopping”, ou “personal shopper”, que dá dicas de compra e bajula enquanto segura as sacolas do amo. O que está por trás dessa fixação por servidão 24 horas é a desigualdade.

Em outros casos, porém, a “valetização” que substitui os serviços domésticos se sofistica profissionalmente e assegura , pelo menos, remunerações mais razoáveis a seus profissionais, muitos deles, hoje, com formação superior. Consola-os o fato de que a precarização não é um fenômeno exclusivo deles. Está disseminada na sociedade contemporânea. Na Alemanha, está na raiz do seu atual milagre econômico. Em setores nobres, como da Ciência, principalmente no Brasil, todo mundo vive de bolsas e projetos. Foi-se o tempo do trabalho estável. Instaurou-se em todos os campos da vida social o império da precariedade. Ttudo que era sólido, foi-se pelos ares...Até os empregos. Domésticos e Não Domésticos.

Porto Alegre, 03 de abril 2013
O autor agradece citações assinaladas e  devidas a RICARDO ANTUNES (Unicamp) e Gabril Bonis, Rodrigo Martins , Willian Vieira e Adriana Setti ( Revista Época) , Adriano Benayon (desenvolvimentistas.com.br)  , cujos originais estão em DROPS abril 04 www.paulotimm.com.br



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