No começo dos anos oitenta, as
ditaduras militares caíam de podres. E o império dos Estados Unidos,
patrocinador de todos elas, estava desmoralizado perante a consciência
libertária mundial.
Foi motivo
suficiente para o ex-presidente Jimmy Carter percorrer a América Latina a
pregar a redemocratização. Mas seria uma
redemocratização condicionada a “desde que a esquerda não chegasse ao poder”. Na verdade, seria um disfarce, um
prosseguimento das ditaduras com roupagem democrática: o povo participaria do processo, elegeria
candidatos que teriam de passar pelo crivo dos organismos de controle da
economia internacional(FMI, Banco Mundial) e dos Estados Unidos. E a grande imprensa teria a tarefa de
promover ou detonar políticos, conforme sua imagem e seu desempenho em relação
à ideologia. O modelo valeria para todas
as instâncias de governo, desde a presidência da república até os municípios. E quem tivesse o poder econômico, teria o
poder de fato.
Todo o Brasil assistiu a derrubada do
projeto Dante de Oliveira, que propunha eleições diretas na efervescência da clamor
público pelas Diretas-Já, impulsionado pelo comício de 16 de
Abril de 1984.
“Em 25 de abril de 1984, sob grande expectativa dos brasileiros, a emenda
das eleições diretas foi votada, obtendo 298 votos a favor, 65 contra e 3
abstenções. Devido a uma manobra de políticos aliados ao regime, não
compareceram 112 deputados ao plenário da Câmara dos Deputados no dia da votação.[3] A emenda foi rejeitada por não
alcançar o número mínimo de votos para a sua aprovação.[1](Wikipédia).” Tropas do Exército cercaram a Esplanada dos
Ministérios, como forma de pressão sobre os congressistas. Se a emenda fosse aprovada naquele momento,
algum dos exilados políticos que tivessem retornado provavelmente se elegeria
presidente da república. O mais propalado era Leonel Brizola, cunhado de João
Goulart que fora deposto em 1964.
A situação foi imposta conforme o
modelo acordado e sem divulgação adequada por razões compreensíveis. Por meio
de várias estratégias, criou-se um regime que anulava o surgimento das
lideranças de esquerda, ou o seu aniquilamento, caso superassem as artimanhas
do poder paralelo. Assim, surgiu o PT
das mãos do Golbery do Couto e Silva, como forma de dividir a classe trabalhadora
e enfraquecer o trabalhismo, principal alvo da Direita nas mãos dos
militares. Leonel Brizola, para se
eleger Governador do Rio de Janeiro(1982) teve de vencer o poder da Rede Globo,
que montou o sistema Proconsult para fraudar aquelas eleições, por meio de um
processo informatizado que dava números falsos como resultado do pleito. Foi necessária uma auditoria para fazer a
recontagem física dos votos, um por um, para se chegar a resultado
incontestável que a Justiça Eleitoral não tivesse como negar.
Criou-se o Consenso de Washington
para agregar os postulantes a cargos eletivos que se subordinassem à Cartilha do
FMI, o modelo de política econômica a ser aplicada em toda a América Latina,
independente das peculiaridades locais. Isto levava, em resumo, à projeção de
candidatos de igual perfil para chegarem à disputa final de cada pleito, muito
semelhante às eleições para a presidência estadunidense, onde o Partido
Republicano e o Partido Democrata praticam a mesma política econômico-social no
plano interno, e a mesma intromissão na vida de outros países no plano externo.
Dentro desse esquema, nenhum
governante brasileiro promoveu melhorias sociais à classe trabalhadora, nem deu
prioridade à educação de qualidade, que libertasse as massas populares do
analfabetismo e do atraso. A ditadura ganhou outro formado. No lugar das armas,
usaram o poder econômico.
Entretanto, Leonel Brizola no
governo do Estado do Rio de Janeiro, e Darcy Ribeiro como Secretário da
Educação, implantaram os Centros Integrados de Educação Pública – CIEPs, a escola de tempo integral onde seus alunos tinham acesso a métodos especiais de
aprendizado, alimentação completa supervisionada por nutricionistas, prática de
esportes e de leitura e tratamento odontológico. As crianças que não tinham onde morar,
passavam a noite na própria escola, acompanhadas por “pais sociais”, que
ficavam como ‘residentes’ nessas escolas.
Enquanto Brizola estava em projeção, os legisladores proibiam
a reeleição para os cargos executivos.
Os seus sucessores destruíam as escolas e sabotavam o projeto. Seu
primeiro mandato terminou em 1987. Em
1991, voltou, alternadamente, encontrou o sistema deteriorado, recuperou e
completou o plano de 500 CIEPs no Estado. Depois de 1997, houve novo desmonte
daquela experiência que teria elevado alcance social, com considerável queda da
criminalidade, principalmente na delinquência infanto-juvenil.
Fomos detalhados até aqui, para entendermos o porquê da
deficiência educacional nos municípios.
Acontece que às classes dominantes interessa esse quadro de
um povo desprovido de conhecimentos.
Sabem que a Educação liberta. Se liberta, a população lutaria contra a
exploração do homem pelo homem; lutaria pela justa distribuição da riqueza,
através de salários que cubram suas necessidades de sobrevivência digna;
lutaria pela igualdade de oportunidade para todos, contra privilégios injustos,
contra impostos extorsivos, acima da capacidade de renda dos cidadãos e
cidadãs; lutaria pela justiça social.
As classes dominantes preferem ter o crime organizado como
parceiro nos seus empreendimentos de financiamento de campanha política e no
compartilhamento dos poderes, que lhes oferecem leis favoráveis a seus
interesses. Essas classes querem o povo desinformado de suas próprias
qualidades e direitos, para servir de massa de manobra e para exploração de sua
força de trabalho em um novo tipo de escravatura, disfarçada por remuneração
aviltante, muito abaixo do seu valor e das suas necessidades.
Não por acaso, com raríssimas exceções, os candidatos que
chegam à decisão de uma eleição geralmente são dois, com aparências diferentes,
mas que defendam os mesmos interesses e o mesmo estado de coisas. Candidatos,
cujo resultado corresponda a uma decisão de “cara ou coroa”, porque representem
faces de uma mesma moeda.
Por essas razões, o quadro é igual no Brasil, nos estados e
nos municípios: escolas de má qualidade, desemprego, falta de habitação, baixa
remuneração para quem trabalha, altos vencimentos para os privilegiados agentes
públicos – com exceção de professores – alta
concentração de renda, saúde deficiente, moradores de rua e crescentes
problemas sociais.
(Franklin Netto – viscondedoriobrancominasgerais@gmail.com)
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